2008/01/13


Há livros que me fazem chorar.


Cal de José Luís Peixoto conseguiu-o.


Aos trinta, começo a conhecer melhor a morte, sempre latente na velhice que cada vez mais me rodeia. As minhas velhas são também aquelas velhas vestidas de preto, que ficam à lareira ou à porta na calhandrice com as vizinhas.

Talvez por isso este livro me tenha tocado como talvez não conseguisse antes de me começarem a morrer as velhas e a ir a funerais e a imaginar o dia em que alguém mais próximo e que me faça mais falta me faltar...


O conto "Ti Julha" foi acabado de ler a chorar.


"Na terça-feira passada, quando morreu, tinha mais de noventa anos. A pele do seu rosto era branca e serena. Sei que se lhe tivesse tocado com as costas dos dedos na face teria sentido a mesma pele suave que sentia quando a minha mãe me dizia: dá um beijinho à Ti Julha. Olhei para o seu corpo pequeno, magro e vestido de negro. Aos seus pés, entre coroas de flores com cartões onde estavam escritas as palavras: eterna saudade, pousei um ramo de flores sem cartão e sem palavras escritas. Sob o silêncio dos olhares das filhas e de algumas das netas e dos netos, aproximei-me de um canto, onde estava uma máquina com velas falsas que tinham lâmpadas na ponta, que se teriam acendido se tivesse enfiado uma moeda numa ranhura gasta. As minhas botas sobre os mosaicos. Apertei algumas mãos, olhei ao longe para o rosto da Ti Julha e saí. Quando chegeui ao carro, telefonei à minha mãe. Depois de desligar, senti o meu coração e chorei."

1 comentário:

hertista disse...

Deve ser mesmo bonito este livro! Aí está uma sugestão que procuro! :)
Agradecida! :))

E mais! Tenho um miminho para ti no meu Coisas_Coloridas!

Beijoquinhas
Ticha