Numa das minhas buscas pela net sobre croché, encontrei a referência a este livro...
... e resolvi comprá-lo. Graças ao vulcão islandês demorou duas semanas a chegar, mas quando, finalmente, veio parar às minhas mãos, iniciei a minha maratona de crochetar flores!
Tenho tido dificuldades em fazer alguns dos padrões básicos, pois as instruções escritas por vezes não são muito claras. Para além disso, tenho que estar sempre a ver a cábula que fiz de conversão de pontos American English (os que aprendi no Youtube) em British English (os do livro).
Numa altura em que não me posso movimentar muito, ficar na caminha a decifrar padrões de croché e a imaginar futuras aplicações para as flores é o que me está a dar mais prazer...
Estas são as borragens. É uma hipótese de decoração para o meu barrete.
Esta é uma margarida - o nome em inglês é muito giro - Lazy Dasy. O botão devia ser amarelo, mas não tenho lã dessa cor, de momento.
Este é um trevo. Desmanchei a segunda folha várias vezes, pois parecia que não era nada daquilo, quando, afinal, até era. Este é um bom exemplo de parcas instruções escritas que são salvas por um bom gráfico. Já se começa a tornar mais fácil para mim interpretá-los.
Tradescantia. Desconheço o nome em Português. Não gostei muito do resultado final, pois a malha ficou muito larga. Opção errada na escolha da agulha.
Estas flores são todas de design básico, i.e., fácil.
Agora, o meu orgulho: um design avançado (difícil)...
Estes brincos de princesa são lindos! Devem fazer uns brincos giros, mas terei de usar uma linha mais fina. Estes foram feitos com algodão, nº6; em nº 12 ficarão mais pequenos e delicados. Vou já fazer mais ;)
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2008/01/13

Há livros que me fazem chorar.
Cal de José Luís Peixoto conseguiu-o.
Aos trinta, começo a conhecer melhor a morte, sempre latente na velhice que cada vez mais me rodeia. As minhas velhas são também aquelas velhas vestidas de preto, que ficam à lareira ou à porta na calhandrice com as vizinhas.
Talvez por isso este livro me tenha tocado como talvez não conseguisse antes de me começarem a morrer as velhas e a ir a funerais e a imaginar o dia em que alguém mais próximo e que me faça mais falta me faltar...
O conto "Ti Julha" foi acabado de ler a chorar.
"Na terça-feira passada, quando morreu, tinha mais de noventa anos. A pele do seu rosto era branca e serena. Sei que se lhe tivesse tocado com as costas dos dedos na face teria sentido a mesma pele suave que sentia quando a minha mãe me dizia: dá um beijinho à Ti Julha. Olhei para o seu corpo pequeno, magro e vestido de negro. Aos seus pés, entre coroas de flores com cartões onde estavam escritas as palavras: eterna saudade, pousei um ramo de flores sem cartão e sem palavras escritas. Sob o silêncio dos olhares das filhas e de algumas das netas e dos netos, aproximei-me de um canto, onde estava uma máquina com velas falsas que tinham lâmpadas na ponta, que se teriam acendido se tivesse enfiado uma moeda numa ranhura gasta. As minhas botas sobre os mosaicos. Apertei algumas mãos, olhei ao longe para o rosto da Ti Julha e saí. Quando chegeui ao carro, telefonei à minha mãe. Depois de desligar, senti o meu coração e chorei."
2007/09/22
Leituras que marcam
(As minhas rosas, hoje de manhã)
Há livros que, escritos em prosa, são de uma carga poética intensa. Lêem-se como se as palavras que os compõem fossem letra de uma qualquer canção. Apetece começar a trautear...
Para mim, este livro foi verdadeira poesia cantada aos meus ouvidos, baixinho, como a voz do autor...
"Kriska porém não ergueu as mãos, preferiu não me tocar. Respirou fundo, abriu a boca para falar alguma coisa, e senti que, com uma palavra apenas, me causaria dano maior. Com uma só palavra Kriska me cobriria de vergonha, me aleijaria, me faria andar torto de arrependimento pelo resto da vida. A palavra estava ali nos seus lábios vacilantes, devia ser uma palavra que ela nunca se atrevera a pronunciar. Devia ser uma palavra arcaica, derivada da voz de alguma ave nocturna, uma palavra caída em desuso de tão atroz. (...) Então, não me contive e supliquei: fala! Kriska não falou. Expirou todo o ar que tinha, balançou a cabeça, voltou para a cama, se cobriu, se virou para o lado e apagou a luz."
Buarque, Chico (2003) Budapeste. Lx: Publicações D. Quixote, p.115.
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